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domingo, 16 de setembro de 2012

A Redenção da Gordura e Neurotransmissores, Drogas e Doenças Mentais


              
                As gorduras saturadas foram, por muito tempo, consideradas um problema, e recomendava-se evitá-las para uma dieta saudável. Hoje, como citado na revista Veja de 27 de junho de 2012, esse conceito mudou. As gorduras saturadas são nutrientes importantes para o nosso organismo, participando, por exemplo, da formação da membrana plasmática de nossas células. Assim, não se deve evitar o consumo de gorduras, mas isso não quer dizer que os riscos associados a ele devem ser ignorados. Como todo nutriente, o consumo exagerado de gorduras causa complicações, algumas delas já amplamente conhecidas, como o desenvolvimento de problemas cardíacos.

                A restrição do consumo de gorduras pregada nos últimos tempos levou a um aumento no consumo de carboidratos. Esses também causam danos ao organismo quando consumidos em excesso, e esses danos podem ser maiores do que os relacionados ao alto consumo de gorduras. Os carboidratos, depois de ingeridos, causam uma alta produção de insulina, o que, ao longo do tempo, pode causar resistência a esse hormônio. Outro problema é que, por ter absorção mais rápida que as gorduras, a sensação de saciedade causada pela ingestão de carboidratos dura menos. Com isso, o indivíduo passa a ter fome novamente em um intervalo menor de tempo, o que pode fazer com que coma mais, levando ao sobrepeso.

                As chamadas “gorduras” que ingerimos na dieta são predominantemente triglicerídeos, formados por três ácidos graxos ligados a um glicerol. A classificação entre “gorduras insaturadas” e “saturadas” refere-se à maior proporção de ácidos graxos insaturados ou saturados, isto é, com ou sem duplas ligações entre carbonos, respectivamente. Os ácidos graxos insaturados, por sua vez, dividem-se em monoinsaturados (só com uma ligação dupla entre carbonos) e poliinsaturados (com mais de uma ligação dupla entre carbonos). Dois tipos de ácidos graxos poliinsaturados são especialmente importantes para a nutrição humana porque eles não podem ser sintetizados pelo nosso organismo: os ômega-3 e os ômega-6 (esses nomes se referem à localização da ligação dupla mais longe da carboxila). Eles são chamados ácidos graxos essenciais por causa dessa característica.
 



Esses ácidos graxos têm grande importância nas funções cerebrais e é com eles que o nosso grupo pretende relacionar o tema “A Redenção da Gordura” ao assunto do nosso blog, “Neurotransmissores, Drogas e Doenças Mentais”. Para se ter uma noção de como os dois temas são ligados, 80% do peso do cérebro humano desidratado correspondem a lipídeos, sendo que 15 a 30% correspondem apenas aos ácidos graxos essenciais.

Alguns ácidos graxos essenciais estão presentes em grande quantidade nos fosfolipídios e ésteres de colesterol presentes nas membranas celulares dos neurônios, especialmente nas membranas sinápticas e dentríticas. Quando esses ácidos graxos não estão disponíveis no organismo por não terem sido ingeridos em quantidade suficiente, eles são substituídos nas membranas neuronais por outros ácidos graxos. Contudo, as propriedades das membranas são alteradas dessa maneira, chegando a modificar a estrutura tridimensional dos receptores de membrana e sua associação a neurotransmissores, o que demonstra a necessidade de ingestão desses ácidos graxos, provenientes de lipídios da dieta, para o bom funcionamento cerebral.

Além da importância da ingestão de ácidos graxos essenciais para as funções cerebrais, a proporção entre ômega-6 e ômega-3 consumidos também parece ser de grande relevância. A dieta ocidental tem uma razão de ômega-6 para ômega-3 pelo menos seis vezes maior do que as dietas pré-históricas. Isso está relacionado à diminuição no consumo de vegetais frescos e peixes e ao aumento da ingestão de óleos de sementes como soja e girassol. Uma vez que os ômega-6 têm propriedades inflamatórias e os ômega-3 têm propriedades antiinflamatórias, acredita-se que essa mudança pode ter levado ao aumento de doenças inflamatórias como aterosclerose e trombose. Além disso, há pesquisadores que sugerem que essa mudança na proporção dos ácidos graxos essenciais ingeridos pode ter levado também ao aumento de doenças mentais, que também são assunto do blog.

Algumas possíveis evidências da relação entre ácidos graxos essenciais e doenças mentais foram obtidas experimentalmente. Uma delas foi uma relação inversa observada entre consumidoras de peixe e pacientes depressivas (o estudo foi conclusivo apenas para mulheres, tanto com depressão comum como com depressão pós-parto). Como peixe é a principal fonte de ômega-3, pode ser que o aumento relativo desse ácido graxo esteja relacionado à menor incidência da doença. O consumo de peixe também foi percebido como inversamente proporcional à incidência de suicídio e transtorno bipolar, mas não houve relação com a incidência de esquizofrenia. Outra linha de estudos obteve como resultado menor quantidade de ômega-3 nas membranas plasmáticas de hemácias de pacientes depressivos e esquizofrênicos do que nos grupos controle. A suplementação da dieta de pacientes com ômega-3 é uma terceira maneira de tentar verificar a relação entre a deficiência do ácido graxo e a incidência de doenças mentais. Melhoras significativas foram observadas em pacientes depressivos, com doença de Huntington e com comportamentos agressivos. Com relação à esquizofrenia, transtorno bipolar e déficit de atenção, estudos foram feitos, mas não houve resultados conclusivos ou houve resultados conflitantes de equipes diferentes.

Em suma, por incrível que pareça, gorduras têm sim a ver com neurotransmissores, drogas e doenças mentais. Determinados ácidos graxos podem chegar a influenciar a ligação dos neurotransmissores aos seus receptores na membrana pós-sináptica. Além disso, há indícios de que a deficiência de alguns desses ácidos graxos esteja relacionada a doenças mentais e que eles podem ser usados como suplementação da dieta para melhorar sintomas dessas doenças, com resultados similares aos de drogas medicamentosas. Dessa forma, por mais que gorduras não sejam benéficas em excesso, elas são essenciais até à saúde mental, em especial as gorduras que contêm ácidos graxos essenciais.

Bibliografia










Veja, edição 2275, ano 45, nº 26, p. 94-100, 27 de junho de 2012, editora ABRIL.

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